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sexta-feira, abril 19, 2024
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A violência nas escolas brasileiras e a iniciativa de uma cidade mineira que pode salvar vidas

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Desde 2019, a gestão municipal de Santa Rita do Sapucaí, localizada no sul de Minas Gerais, realiza investimentos nos projetos socioemocionais e na formação da rede pública local para promoção da felicidade, investindo em obras, mas também nos programas sociais e educacionais. Como resultado, a cidade possui baixo índice de afastamento dos profissionais de educação por problemas de saúde, e ampla redução nos casos de violência nas escolas. 

Ações desenvolvidas em Santa Rita do Sapucaí-MG no ano de 2019, que contou com a participação coletiva de todos os poderes locais.

No ano de 2019, a cidade de Santa Rita do Sapucaí, em Minas Gerais, apostou na realização de um programa exportado do distante estado do Tocantins, denominado Recriar Vidas, promovido pelo empresário e empreendedor social Ricardo Ribeirinha. Sua história de vulnerabilidade, violência e luta contra a dependência, inspirou um conjunto de ações formativas e conteúdos voltadas a abordagem sobre temas relacionados a saúde mental, violência e problemas de convívio familiar e escolar.

A formação, tendo como contexto a história pessoal de vida de Ribeirinha, foi preparada com base na implantação das competências socioemocionais, então recém instituída pela reformulação da Base Nacional Comum Curricular – BNCC, que fora aprovada no final de 2018. O que até então era para ser um programa de redução do risco de consumo de drogas entre adolescentes e famílias, passou a ser uma formação de âmbito nacional sobre a abordagem dos temas que afligem gestores escolares, famílias, profissionais da educação e especialmente os alunos da rede pública: as vulnerabilidades sociais, a violência e os fatores biopsicossociais que afetam o desempenho das escolas, tanto para professores quanto para alunos.

A partir de 2019 até os dias atuais, a cidade, assim como todo país, passou por um duro processo pandêmico que afetou o processo tradicional de ensino aprendizagem, retirando o aluno da escola, obrigando o compartilhamento das atividades de ensino com a família e exigindo dos profissionais a adaptação para novos meios educacionais. Uma tarefa dura e repentina que gerou avanços do uso dos recursos tecnológicos, mas a criação de um abismo na relação interpessoal e institucional entre famílias, professores e alunos. Um trauma que agravou uma situação já delicada de saúde emocional coletiva, promovendo uma piora significativa nos casos de ansiedade, depressão, ideação suicida, automutilação, desmotivação, capacidade de concentração, dependência de tela (tablet’s e celulares) e, especialmente, da violência. O fato é notório pelo crescimento nos casos de ataques a escolas e dos registros dos casos de abuso e violência física no ambiente escolar.

Preocupado com o futuro, mas pensando na possibilidade de um cenário de dificuldade quanto ao tratamento de temas delicados, relacionados a educação socioemocional, foi que a cidade de Santa Rita do Sapucaí-MG inovou, investiu e saiu na frente, servindo de espelho para cidades de norte a sul do país. Os projetos ali desenvolvidos como o Cidade Criativa, Cidade Feliz, e o programa Recriar Vidas, só deram resultados porque envolveram os organismos de controle como parte do problema. A cidade contou com a colaboração e acompanhamento da Defensoria Pública, Promotoria, Poder Judiciário por meio da Vara de Infância e Juventude e forças policiais.

Ricardo Ribeirinha com autoridades dos órgãos de fiscalização de Santa Rita do Sapucaí-MG. Projeto na cidade contou com a participação e fiscalização da Defensoria Pública, Poder Judiciário e Promotoria.

A importância da abordagem socioemocional no Brasil

A pequena cidade de Novo Alegre, interior do Tocantins está desenvolvendo atualmente a segunda fase do projeto, iniciado em 2022. Tomou a iniciativa de manter o desenvolvimento das ações, focando a melhoria do aprendizado dos alunos da rede municipal. A cidade compreendeu, mesmo tendo um pequeno contingente populacional, que o entorno possui uma crescente de violência nos últimos anos, e que precisava adotar medidas de proteção social dos alunos matriculados na rede. O que tem Novo Alegre no Tocantins e Santa Rita do Sapucaí em Minas Gerais tem em comum, apesar da distância e das diferenças geográficas? Ambas têm profissionais com problemas biopsicossociais, alunos de baixa renda matriculados na rede e com grandes problemas relacionados as vulnerabilidades, como pobreza e violência. Independente das diferenças os problemas no âmbito educacional são similares, especialmente pós pandemia.

É justamente essa abordagem, sobre como o ensino socioemocional pode mudar a mentalidade de uma cidade, melhorar relações humanas locais, mitigar seus riscos sociais locais e alavancar o nível de rendimento dos alunos que fazem do projeto um programa nacional de sucesso. De acordo com a Psicóloga, mestre em bullying e pesquisadora, Michele Zukoswki, a abordagem da formação pode ser determinante na melhoria das relações humanas na escola, no bairro, na cidade e na região. “Importante ressaltar que o desenvolvimento humano é dialógico, ou seja, ocorre através das relações. Assim, saber ser e conviver no mundo é fruto de uma boa educação socioemocional. Dentro desse contexto, presenciamos duas realidades hoje gritantes na sociedade: 1. Nós não somos educados para saber vivenciar e expressar nossas emoções de forma saudável; 2. Se nós nos desenvolvemos de forma dialógica e relacional, o desenvolvimento humano como um todo foi prejudicado na pandemia, pois as relações passaram para um novo formato mais frio e distante. Hoje, no contexto pós-pandêmico, estamos colhendo os frutos dessa tragédia que sobrevivemos”, afirma Michele.

A psicóloga Michele Zukowski atua nas escolas, dentro do Projeto Recriar Vidas, abordando os aspectos biopsicossociais que afetam o processo ensino aprendizado de alunos e professores. Os principais temas tem sido o bullying e a violência.

A psicóloga ainda destaca que “temos crianças ansiosas, depressivas, com pensamentos suicidas em idades cada vez mais jovens. Temos crianças com sérios problemas relacionais, o que leva a intolerância, aumento da violência e do bullying entre os escolares. Vemos que o desenvolvimento socioemocional dessas crianças, que muitas vezes já era falho, foi altamente prejudicado, pois elas foram privadas das relações que antes também lhes serviam como reguladores emocionais. Assim, hoje encontramos um contexto escolar totalmente diferente do que estávamos acostumados. E digo mais, não somente nossas crianças foram lesadas no processo, mas nossos professores também, pois nunca imaginavam que teriam que se reinventar de tamanha forma para lidar com essa realidade.”

Para a formadora, professora e psicopedagoga Eliane Sales, neste contexto, a relação professor-aluno também fica prejudicada/fragilizada. “De maneira geral nós ensinamos, na maioria das vezes, como fomos ensinados. Então encontramos outro fator complexo nessa situação: nós não recebemos educação socioemocional, como conseguiremos ensiná-la? Nos é passado que para viver bem precisamos ‘ser fortes’, e grande parte das vezes o “ser forte” está ligado a ignorar e não vivenciar as emoções, ou seja, como disse, nós não somos educados para saber vivenciar e expressar nossas emoções de forma saudável. Pelo contrário! Somos ensinados a não as vivenciar”, afirma Eliane.

“Nós não temos educação socioemocional, mas será que nossas crianças precisam também sofrer com essa ausência? Tudo isso impacta diretamente na aprendizagem e no desempenho acadêmico deste aluno. Como aprender e me desenvolver como cidadão sendo que eu não consigo ter ou cultivar bons relacionamentos por falta de habilidades socioemocionais? Esses fatores ressaltam a extrema importância de um eficaz ensino sobre habilidades socioemocionais na escola, focada para as necessidades do ensino público, que muitas vezes têm necessidades específicas que devem ser tratadas e observadas como tais. Por isso, a necessidade de formação contínua sobre os temas relacionados aos aspectos socioemocionais. Do contrário, nossas ações seriam em vão, pois não teriam a objetividade necessária para fazer a diferença no sistema de educação pública do nosso país”, emenda a professora.

Infelizmente, a violência nas escolas tem sido um problema persistente no Brasil ao longo dos anos, com alguns aumentos e diminuições em determinados períodos. Aqui estão alguns dados e informações sobre o crescimento da violência nas escolas do Brasil nos últimos anos: em 2019, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) divulgou uma pesquisa que mostrou que a violência escolar aumentou no Brasil entre 2015 e 2018. Segundo a pesquisa, 12,5% dos estudantes do ensino médio relataram ter sofrido agressões físicas dentro da escola em 2018, um aumento em relação aos 10,5% registrados em 2015. Além disso, 29,6% dos estudantes afirmaram ter sofrido algum tipo de violência (física, psicológica ou verbal) em 2018, em comparação com os 27,6% registrados em 2015.

O bullying é uma forma comum de violência escolar no Brasil e também tem sido um problema crescente nos últimos anos. Um estudo realizado em 2018 pelo Ministério da Saúde revelou que 7,6% dos estudantes do ensino fundamental e médio sofrem bullying diariamente e que o número de casos aumentou em relação a 2015, quando 6,9% dos estudantes relataram sofrer bullying diariamente.

Dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (SINESP) mostram que os casos de violência nas escolas aumentaram em algumas regiões do Brasil nos últimos anos. Por exemplo, entre 2015 e 2019, o estado de São Paulo registrou um aumento de 19% nos casos de ameaças e agressões em escolas estaduais, segundo dados da Secretaria de Educação do estado.

A pandemia de COVID-19 pode ter contribuído para o aumento da violência nas escolas no Brasil, uma vez que muitos estudantes passaram a ter aulas virtuais, o que dificulta a identificação e prevenção da violência. Em 2021, uma pesquisa da organização humanitária Visão Mundial mostrou que 75% dos estudantes brasileiros relataram ter sofrido algum tipo de violência durante a pandemia, incluindo violência doméstica e violência online.

Em resumo, a violência nas escolas no Brasil tem apresentado aumentos ao longo dos anos, tornando-se um problema preocupante que afeta a segurança e o bem-estar dos estudantes e dos profissionais que atuam em toda rede de ensino. É importante que governos, escolas, famílias e comunidades trabalhem juntos para prevenir e combater a violência escolar e garantir um ambiente escolar seguro e acolhedor para todos os estudantes.

Aumento dos ataques nas escolas brasileiras

Infelizmente, o Brasil tem visto um aumento preocupante nos ataques de alunos em escolas nos últimos anos. Nesta semana um aluno invadiu a Escola Estadual Thomazia Montoro em São Paulo, matou uma professora de 71 anos a facadas e agrediu outros profissionais e alunos. Mas este não é um caso isolado. Aqui estão alguns exemplos recentes: Em 13 de março de 2019, dois ex-alunos entraram na Escola Estadual Raul Brasil, em Suzano, São Paulo, e abriram fogo, matando cinco estudantes, duas funcionárias da escola e, em seguida, se suicidando. O ataque chocou o país e gerou debates sobre o acesso a armas e a necessidade de investir em políticas de prevenção da violência escolar.

No dia 11 de setembro de 2020, um estudante de 14 anos esfaqueou uma professora e um colega de classe em uma escola particular em São Paulo. O ataque aconteceu durante uma aula online e teria sido motivado por um desentendimento entre o estudante e a professora.

No dia 10 de novembro de 2021, um estudante de 18 anos invadiu uma escola particular em Osasco, São Paulo, e agrediu a professora e os alunos com uma barra de ferro. O ataque deixou três estudantes feridos, incluindo uma menina de 10 anos que foi hospitalizada em estado grave. Estes são apenas recortes de fatos e dos relatos ocorridos nos últimos anos, que envolvem ainda uma série de atos de violência em escolas, ocorridos em vários estados.

Esses ataques mostram que a violência nas escolas é um problema sério e que precisa ser tratado com urgência. É importante que escolas, famílias e autoridades trabalhem juntos para prevenir a violência escolar, identificar e tratar problemas de saúde mental entre os alunos, implementar medidas de segurança nas escolas e promover uma cultura de paz e respeito.

O que é o Projeto Recriar Vidas

O Projeto Recriar Vidas é um programa que nasceu no Estado do Tocantins, e encontra-se em expansão para diversos outros estados, dentre eles Minas Gerais, São Paulo, Distrito Federal, Goiás e Pará, tendo como objetivo na capacitação sobre os aspectos de vulnerabilidade social e os fatores biopsicossociais que afetam negativamente crianças, jovens e profissionais da rede pública de ensino, e a aquisição de conteúdos didáticos com foco na abordagem dos aspectos socioemocionais, estabelecidos na Base Nacional Comum Curricular – BNCC desde o ano de 2018, com foco na mitigação de risco social de estudantes da rede pública, crianças e jovens, inclusive quanto ao risco do consumo de substâncias psicoativas.

O projeto promove a capacitação de agentes públicos das áreas de educação, assistência social, segurança pública e saúde, bem como de servidores que atuam nos organismos de controle social, conselheiros tutelares e sociedade civil organizada. É utilizada metodologia de estudo de caso real, por meio da história, vivência e recuperação de Ricardo Ribeirinha.

O curso é dividido em etapas, sendo a primeira de instrumentalização pedagógica, psicológica, e posteriormente as oficinas de projetos permanentes para os profissionais, tendo como finalidade a garantia da formação de uma rede de proteção social nas cidades, tanto dentro do projeto político pedagógico nas escolas bem como para projetos sociais desenvolvidos nas comunidades mais vulneráveis, inclusive com viés quanto à avaliação do risco e grau de consumo de substâncias psicoativas, bem como ações de redução dos fatores de vulnerabilidade social de crianças e adolescentes.

Atualmente, o Projeto é reconhecido pela United Nations Office on Drugs and Crime – UNODC, Escritório das Nações Unidas sobre Drogas no Brasil, pelo Ministério do Desenvolvimento Social do Governo Federal, e por diversas outras cidades e instituições que já receberam o Programa.

O projeto também prevê a entrega de conteúdos paradidáticos da coleção “Viver de Cara Limpa, Uma Escolha”, de autoria de Ricardo Ribeirinha, para as ações por estudo de caso real a serem desenvolvidas durante o curso. Ainda é disponibilizada coleções didáticas, para alunos, pais/responsáveis e professores, com o intuito de abordar sistematicamente os aspectos socioemocionais como meio de mitigação de risco social. Os conteúdos, disponíveis para ensino infantil e fundamental (anos iniciais e finais), tem como foco a abordagem em sala de aula, de forma regular, das competências estabelecidas na BNCC.

Sobre a formação e os conteúdos, podemos afirmar que quando falamos sobre competências socioemocionais não estamos falando apenas sobre emoções, mas estamos falando sobre como viver e viver plenamente, uma vez que para vivermos plenamente precisamos ter habilidades relacionais que favoreçam o bem-estar, o convívio e o desenvolvimento da sociedade como um todo.

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